Os obstáculos para manutenção de um atendimento
educacional integrado aos autistas em escolas públicas
Extraído do livro UM AUTISTA MUITO ESPECIAL,
2008, Deusina Lopes da Cruz
deusinalopesdacruz@gmail.com.br
www.editoramediacao.com.br
Apesar dos avanços experimentados com a implantação do projeto de atendimentos a autistas em escolas comuns da rede regular de ensino no Distrito Federal, a nossa luta pela educação dos nossos filhos era contínua.
A proposta era ousada, uma vez que os alunos com necessidades educativas especiais estudavam, na sua maioria, em Escolas Especiais (não integrados com os demais alunos), além disso, Carlos Felipe havia, de forma surpreendente, superado grande parte de suas dificuldades e era o primeiro a estudar integrado com alunos não autistas em uma classe comum de uma escola regular do ensino público.
As estratégias de superação dos desafios que uma proposta como esta exige são complexas e por esta razão justificam as parcerias a exemplo da que ocorreu entre a ASTECA (Associação de Pais de Autistas de Brasília) e a Fundação Educacional. Um convênio entre uma instituição pública e uma privada permitiu a atuação conjunta no ambiente público da Escola de profissionais contratados pelas partes convenentes, neste caso, os professores da Fundação e os auxiliares da ASTECA.
As estratégias utilizadas para execução desse projeto eram questionadas freqüentemente pela Fundação Educacional. As questões perpassavam o aproveitamento escolar dos alunos, a capacidade acadêmica de cada um, o papel dos professores na sala de aula, a presença de profissionais auxiliares na sala de aula. Outros aspectos também eram alvo de discussão: a parceria com uma organização não governamental, a capacitação e supervisão recebidas de profissionais especializados que não eram dos quadros da Fundação Educacional e até mesmo se os autistas deveriam estudar em Escolas Regulares ou em Escolas Especiais, ou ainda, se deveriam receber atendimentos apenas da área da saúde em hospitais psiquiátricos.
Essas questões eram e ainda são recorrentes e alimentam falsas polêmicas dos administradores públicos. Digo que são falsas polêmicas porque é claro que, dependendo da necessidade de cada autista, ele deve ser atendido pelo serviço mais adequado e pelo tempo necessário.
Lembro-me que, certa vez, em uma das inúmeras reuniões entre os pais da ASTECA e a Direção de Ensino Especial, sob a constante ameaça de extinção do projeto, a Diretora disse que entendia a reivindicação dos pais e que o projeto da ASTECA era muito bom, mas era como “se uma pessoa tivesse ganhado uma geladeira muito bonita e grande, mas, que não cabia na cozinha da sua casa”. No seu entender, assim era o projeto da ASTECA: “muito bom e bonito, mas não cabia na proposta educacional da Fundação Educacional para pessoas com deficiência” (pelo visto, para esta Diretora era melhor deixar que os alimentos se estragassem a colocar a geladeira em outro cômodo maior da casa, ou aumentar a cozinha).
O projeto se mantinha graças à pressão dos pais, sempre preocupados se no ano seguinte íamos ou não ter escola para nossos filhos. Esta iniciativa pioneira foi decisiva para que a Fundação Educacional incorporasse o atendimento aos autistas no sistema educacional do Distrito Federal até os dias atuais, embora fazendo alguns ajustes de procedimentos.
A partir da experiência da ASTECA, no Distrito Federal, e de outras experiências de atendimento educacional a autistas, em outros Estados, em 1996, quando o Ministério da Educação foi reescrever o Capítulo da Educação Especial dentro da Política Nacional de Educação, ao identificar os alunos com necessidades educativas especiais, substituiu a antiga denominação “alunos com problemas de conduta” por “alunos portadores de necessidades educativas especiais” em decorrência de condutas típicas da síndrome de autismo e de outros quadros neurológicos ou psiquiátricos.
Essa adequação permitiu identificar os autistas como alunos, cujas condutas são típicas (próprias) da condição de portarem a síndrome do autismo e que, por esta razão, têm necessidades educativas especiais que devem ser atendidas pela Escola, dentro das modalidades de ensino, na perspectiva de garantia do direito constitucional à educação.
Sobre essas dificuldades em levar adiante propostas de educação para autistas, uma vez eu conversava com o meu filho mais velho Marcos Fabrício e ele me perguntava:
- Mãe, por que eles não aceitam os autistas nas escolas? Por que têm preconceito?
Respondi:
- Não sei se é preconceito ou desinformação. Eles acham difícil manter as crianças nas Escolas porque elas não são como os outros alunos que passam de ano de acordo com as avaliações que eles aplicam.
O Felipe que estava no quarto e ouviu nossa conversa, respondeu:
- Para mim é fácil.
Eu perguntei:
- Por quê?
Ele respondeu:
- Porque eu passo de ano, ora.
O Felipe gostava de conversar sobre o que estudava na escola. Certo dia nós estávamos tomando Nescau, sobrou açúcar no fundo da xícara e ele perguntou:
- Mamãe, o açúcar é de origem animal, vegetal ou mineral.
Eu respondi:
- É de origem vegetal, é da cana-de-açúcar.
Eu perguntei para ele:
- E o sal?
Ele respondeu:
- É mineral, ora.
Eu perguntei:
- E o leite:
Ele respondeu:
- É animal, da vaca, ora.
E continuou: - Quando Pedro Álvares Cabral estava na Europa e aqui (apontando para o chão) tinha o Oceano Atlântico que banha à leste... e aqui o Brasil é?
Eu respondi:
- É...Este garotinho é muito bonito e inteligente, sabe todas as coisas da Escola.
Em 1993, com 11 anos, o Felipe ainda estudou na mesma escola onde havia começado seus estudos, agora cursava a 4a. série, ainda com relativa facilidade. No ano seguinte, ele iniciou a 5a. série e o nível de dificuldade aumentou. Esta série só podia ser cursada em uma nova Escola de 5a. à 8a. série, na companhia de novos colegas e era constituída por oito matérias distintas, que eram ministradas por oito professores diferentes, sendo que as aulas de educação física e de atividades artísticas eram ministradas uma vez por semana em duas outras escolas.
Mesmo com boa capacidade acadêmica, as novidades foram sentidas de imediato pelo Carlos Felipe que, ao mudar de Escola, perdeu a referência do ambiente que já conhecia, dos colegas com quem estudara e da professora a quem, até então, chamava carinhosamente de tia. Difícil também foi sensibilizar a direção da nova Escola para receber um aluno especial, orientar todos os professores envolvidos, os novos colegas e suas famílias.
Considerando que cada professor tem o seu jeito pessoal de atuar e usa método próprio (uns optam por recomendar várias leituras de textos; outros ditam muitos conteúdos para copiar; outros explicam verbalmente os conteúdos etc), o sucesso do relacionamento professor/aluno fica por conta de cada professor. Lembro que o de Matemática tinha muita dificuldade em lidar com o Felipe. Certa vez, diante de um comportamento que ele considerou inadequado, mandou-o, como castigo, para a Secretaria da Escola. Felipe não atendeu àquela ordem e permaneceu na classe. O professor pegou a sua mochila e saiu da sala. Ao sair, Felipe o agrediu. Como castigo, o Professor entregou uma notificação de suspensão ao Felipe, determinando que ele não fosse à Escola por dois dias úteis (era uma quinta-feira). Chegando em casa, muito angustiado, confuso e frustrado com a situação, Felipe não sabia como lidar com tudo isso e me perguntou:
- O que é mau comportamento? Como é suspensão? É pendurar?
Eu respondi:
- É uma medida que pune as pessoas por maus comportamentos, você não poderá ir à escola por dois dias e, quando retornar, este comportamento (agredir) não deve mais acontecer.
Ele falou:
- Mas a minha professora Vilma disse que eu não podia faltar à aula, tenho que estudar.
Ainda me perguntou:
- Na suspensão posso ir à padaria?
Difícil também foi explicar como contar dois dias úteis a partir de uma quinta-feira (não podia, para esta finalidade, contar sábado e domingo) só deveria retornar à escola na terça-feira (quatro dias no total).
Também no ensino regular o sistema de avaliação de aprendizagem varia de professor para professor: uns aplicam provas com perguntas objetivas; outros com perguntas subjetivas; outros verbalmente; enquanto alguns pedem trabalhos. Esta variedade de formas de avaliar dificulta a vida de alunos com as características de autismo, que necessitam de atividades previamente planejadas e sistematicamente apresentadas com métodos adequados.
Considero o processo de avaliação no Ensino Regular totalmente danoso para os alunos com necessidades educativas especiais, como no caso do autismo, principalmente quando se tratam de provas escritas. Esses alunos nem sempre compreendem o enunciado da questão e, embora saibam a resposta, podem não responder corretamente. Tenho dois registros dessa situação em provas de avaliação do Carlos Felipe:
1 - Em uma prova havia uma pergunta que começava com dois desenhos: a) uma menina bebendo água do filtro; b) uma menina bebendo água da torneira, seguidos de duas perguntas:
- Pergunta 1 - Marque um X na forma correta de beber água (a ou b)
- Pergunta 2 - Justifique:
Ele respondeu corretamente à pergunta 1, marcando a letra (a), a menina bebendo água do filtro. Porém, não entendeu o que significava a palavra Justifique e por esta razão não respondeu à pergunta 2. Embora soubesse que era incorreto beber água da torneira, ele não associou este conhecimento prévio à palavra justifique, que indicava o comando da questão (b).
2 - O Pedrinho viu os policiais com uma carrocinha de Cachorros pegando os cachorros que estavam soltos na rua. Quando os policiais se distraíram, o Pedrinho abriu a porta da carrocinha e soltou todos os cachorros. Pergunta:
- Você concorda com o que o Pedrinho fez?
Sim ( ) Não ( )
O Felipe não respondeu a esta pergunta. Peguei a prova e fui explicar-lhe o que era uma carrocinha de Cachorros e interpretar toda a história para ele. Depois, perguntei se ele gostava de cachorro, se ficaria com pena dos cachorros presos e por esta razão os soltaria. Ele escutou tudo, com os olhinhos grandes me olhando, e perguntou:
- Os cachorros tinham pêlos?
Eu respondi:
- Sim
Ele disse:
- Eu odeio pêlos, eu tenho asma.
Eu falei:
- Então, você preferia que os policiais tivessem levado os cachorros. Portanto, você não concorda com o que o Pedrinho fez, sendo assim, sua resposta é Não.
Por todas estas dificuldades, o Felipe se angustiava muito. Lembro que ele cursava a 3a. série e andava tirando umas notas MM nas provas (as notas variavam de 5 a 10 e eram classificadas em MI, MM, MS a SS) por esta razão ele tentava fazer algumas sugestões como esta que registrei:
Mãe,
- E se eu voltasse a estudar pela manhã com a professora Dorinha?
Eu respondi:
- Você está querendo dizer que gostaria de estudar a 3a. série pela manhã com a professora Dora (ele já conhecia esta professora) porque assim não tiraria MM na prova?
Ele respondeu:
- Exatamente.
Eu argumentei:
- A gente tira MM quando ainda precisa estudar um pouco mais ou quando não entende a pergunta da prova. Você pode pedir à professora para explicar melhor o que está sendo perguntando e dizer que você não está entendendo. Mesmo as crianças que estudam pela manhã com a Tia Dora também tiram nota MM. A sua professora atual, Rosa, gosta muito de você e vai sempre explicar quando você não entender.
A professora atual, Rosa, trabalha muito bem com o Felipe e sabia de suas dificuldades em compreender os enunciados das questões das provas, por esta razão, às vezes ele tirava MM. Mas, segundo ela, ele era o aluno mais inteligente da turma e ela ia procurar resolver estas questões. A maior dificuldade do Carlos Felipe era de abstrair conceitos do tipo: “O que você entende por?”, “Você concorda com isto?” .
Verificando os textos que eram indicados para estudos e interpretações na escola do Felipe, observei que, na maioria das vezes, falavam de fantasmas, hipóteses, fantasias, imaginação, etc, temas de difícil compreensão para alunos autistas porque eles não abstraem conceitos. Considerando as características desses alunos, a avaliação de aprendizagem deve ser um processo contínuo, no qual se empreguem métodos e técnicas mais específicas e compatíveis com as condições especiais de aprendizagem da síndrome de autismo, diferentemente das provas e notas adotadas maciçamente no ensino regular para todos os alunos.
Entendo que estudar integrado aos alunos não autistas é um processo que não deve ter um fim em si mesmo, devendo ser entendido como um meio para facilitar o desenvolvimento global das potencialidades dos alunos especiais pela oportunidade de vivências e integração social e pela troca de conhecimentos. Acredito que os alunos especiais se encontram em um impasse quando não conseguem provar seus conhecimentos em provas nas quais são utilizadas as mesmas formas de avaliação dos demais alunos, gerando neles frustração.
Mesmo com tantas capacidades, era penoso para o Felipe superar as dificuldades estruturais do sistema regular de ensino. E, mais uma vez, valendo-se da legislação, a Fundação Educacional realizou novas adequações na Escola onde ele estudava a 5a. série. O prazo para conclusão do ano letivo foi ampliado de um para dois anos; as matérias foram divididas em dois blocos (três matérias por ano), o que facilitou a mescla entre as disciplinas que ele tinha mais dificuldade e aquelas que considerava mais fáceis; as atividades extra-classe, tais como educação física e atividades artísticas, deixaram de ser obrigatórias para ele. Desta forma, Felipe concluiu a 5a. e metade da 6a. série do primeiro grau, com certificação.
A oportunidade de estudar integrado dos oito aos dezesseis anos, e até a 6a. série, foi decisiva para a promoção do desenvolvimento pessoal do Carlos Felipe. Porém, o árduo processo de adaptação da dinâmica do ensino regular às necessidades educativas de alunos especiais, como os autistas, nem sempre é compreendido por todos os profissionais, alunos e pais da Escola, causando constantes conflitos e tensões. O aluno especial pode se sentir desconfortável, constrangido, incapaz, muito cobrado nos resultados, causando nele uma situação de grande vulnerabilidade.
Embora seja um direito constitucional prescrito no artigo 208, que determina que a educação de pessoas com deficiência deve ser ofertada preferencialmente na rede regulamentar de ensino, sem as devidas adequações de métodos e técnicas, é questionável o efeito positivo dessa iniciativa.
No caso do Carlos Felipe, ele começou com muita esperança e dedicação, mas as dificuldades foram tantas que, ao final da 5ª série, 16 anos, ele estava extremamente ansioso e inseguro (esta fase da sua vida coincidiu com o início de sua adolescência, fase naturalmente difícil para todos os jovens). Ele não conseguiu compreender que as adaptações feitas no sistema educacional para atendê-lo era um direito seu, previsto em Lei e não um favor da escola e, ainda hoje, acha que fracassou devido a um problema pessoal, o que o faz sentir-se culpado.
Ele ainda sofre muito quando fala desta época, compara-se aos colegas de sala de aula, ao Thiago, por exemplo, e não entende porque aquelas adequações aconteceram somente com ele. Para agravar ainda mais, nesta época seu quadro de autismo apresentou uma evolução para algo parecido com um quadro de psicose marcado por grave confusão mental, ansiedade e distúrbio de comportamento. Não identifiquei o que foi causa ou conseqüência disto, mas valeu à pena tentar, fortaleceu a todos nós nesta luta contínua pela identificação dos melhores serviços para nossos filhos. É um direito nosso que, por mais difícil que seja não devemos desistir nunca.



