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Asperger : Brincadeiras e Crianças Autistas
Enviado por Webmaster em 16/12/2007 03:58:00 (5291 leituras internas)

Brincadeiras e Crianças Autistas

Estudo em questão traz contribuições valiosas para a reflexão sobre
o sujeito autista e suas possibilidades de desenvolvimento em
seu grupo social. O tema escolhido, o brincar das crianças autistas,
é extremamente relevante, original e desafiador.

A autora baseia-se numa concepção teórica que considera que o sujeito
se constitui à medida em que se apropria das atividades da cultura,
por meio dos relacionamentos com os outros, mostrando que a idéia
tradicionalmente aceita, de que a criança autista tem dificuldades ou incapacidades inatas para brincar, não deixa espaço para se pensar na
possibilidade de transformação do sujeito, uma vez que parte da premissa de que criança autista não brinca.

Contestando os estudos que, em sua maioria, asseveram tal concepção, a dissertação de mestrado de Maria Fernanda Bagarollo enfrenta o desafio de demonstrar ao leitor uma nova visão e possibilidade de reflexão.

Perguntar-se por que não brincam foi a questão inicial para a pesquisadora chegar a várias indagações que vão tomando forma com a exposição dos dados de seu estudo e a reflexão teórica fundamentada na perspectiva histórico-cultural por ela empregada.

Partindo do princípio de que “a brincadeira é importante para o desenvolvimento mental da criança; é uma atividade constituída na relação com o outro e mediada pela linguagem; e que todas as crianças, inclusive as crianças autistas, são capazes de brincar” (p. 12), a autora propõe-se a “aprofundar o conhecimento sobre os processos que promovem possibilidades das crianças autistas desenvolverem o brincar e nele desenvolverem-se” (p. 13).

O destaque dado à diferença na maneira de olhar possibilitada pela
teoria proposta torna a leitura da dissertação de Bagarollo clara e permite o acompanhamento do raciocínio empregado. Inicialmente, é
apresentado um histórico dos estudos que se referem às características e explicações/causas sobre o autismo e seus diferentes discursos, decorrentes de diversas concepções teóricas que norteiam a prática clínica e educacional dirigida a essas pessoas, revelando o quanto nelas são desconsideradas as relações do autista com os outros e com os objetos da cultura.

Pensar o autismo e os sujeitos autistas pelo viés teórico proposto
aponta novos caminhos e possibilidades. Mesmo não se levando em
conta as causas orgânicas e/ou emocionais como determinantes do
diagnóstico de autismo, fica evidente a necessidade de uma mudança na concepção de sujeito.

Em seguida, é aprofundada a concepção teórica que fundamenta o
estudo. Opondo-se a outras formas de compreensão do desenvolvimento humano, e remetendo-se a Vygotsky e a seus seguidores, a autora mostra a relevância dessa abordagem, quando assume que “os sujeitos são constituídos nas relações sociais e que o funcionamento psíquico do homem é produto das relações concretas de vida” (p. 42).

Destacam-se também alguns problemas indicados por Vygotsky
(1997) que interferem na educação dos sujeitos deficientes: 1. a idéia de que simbolizar depende exclusivamente da condição orgânica dos sujeitos; 2. a colocação do sujeito numa situação passiva; 3. o distanciamento das metas da educação comum e especial.

Identificando essas mesmas formas de reconhecer e proceder com aquilo que geralmente é oferecido pelo sistema educacional a sujeitos autistas, o trabalho aponta para uma nova direção, propondo-se a refletir a educação dessas crianças, tendo a brincadeira como uma atividade tão importante que deve ser priorizada na educação infantil.

Diversos estudos mostram que a prática do lúdico de crianças deficientes e autistas, embora possa apresentar características distintas daquelas identificadas nas crianças consideradas “normais”, pode ser
construída nas relações estabelecidas no contexto social.

Proporcionando a experiência de brincar para um grupo de quatro crianças autistas em sessões fonoaudiológicas, durante quinze meses, Bagarollo demonstra a importância da mediação social, semiótica e instrumental para a constituição do brincar, permeando os atendimentos por processos de significação e atividade lúdica compartilhada.

Entrevistas realizadas pela autora com os pais dessas crianças permitiram compreender as dificuldades que estes encontram nas relações com seus filhos e como isso constitui um obstáculo para o brincar.

Os resultados do estudo revelam indícios de transformação das
brincadeiras das crianças autistas, por meio da vivência de experiências com brinquedos e da significação dada pelo outro. O fato de perceber os sujeitos como tendo possibilidades e de interpretar suas ações, conferindo-lhes significados, fez com que as atividades ganhassem sentido.

Ainda que incipientes, as brincadeiras começaram a aparecer.
No conjunto de dados mostrados pela autora é possível verificar
como cada uma das crianças integrantes do grupo foi constituindo o
brincar, e como se estabeleceram as relações durante as sessões, permitindo ao leitor compreender o modo como são construídas as possibilidades dessas crianças brincarem.

Concluindo, são apontados caminhos alternativos à educação, à fonoaudiologia e a outros estudos que considerem o sujeito autista além do seu aparato biológico e que confiram importância às relações sociais para propiciar o seu desenvolvimento.

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