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Análise das funções comunicativas
  Enviado em Mon 05 Nov 2007 por Webmaster (2421 leituras)



Autores:
Liliane Perroud MiilherI; Fernanda Dreux Miranda FernandesII

IFonoaudióloga. Mestranda em Ciências da Reabilitação - Comunicação Humana - Universidade de São Paulo
IIFonoaudióloga. Professora Livre Docente do Departamento de Fisioterapia, Fonoaudiologia e Terapia Ocupacional da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo


analisar o uso de funções comunicativas por terapeutas de pacientes do espectro autístico.

MÉTODO: Foram analisadas as funções comunicativas utilizadas por seis terapeutas em interação com seis pacientes cada, constituindo um corpo de análise de 36 perfis de funções comunicativas por díade terapeuta-paciente. Todas as terapeutas faziam parte do Programa de Aprimoramento em Distúrbios Psiquiátricos da Infância, seus pacientes pertenciam ao espectro autístico. Para a coleta dos dados foram utilizadas as transcrições da gravação de uma sessão de terapia e analisadas segundo Fernandes, (2000). As funções comunicativas foram divididas de duas formas: mais e menos interpessoais e instrumental, regulatória, interacional, pessoal, heurística e imaginativa .
RESULTADOS: a comparação entre as funções usadas por terapeutas e paciente revelou que houve diferença estatisticamente significante no uso das funções: pedido de rotina social, de informação e de ação, comentário, reconhecimento do outro, exclamativa, não focalizada, exploratória, exibição, jogo e reativa. Quanto à divisão em funções mais e menos interpessoais ou entre funções instrumental, regulatória, interacional, pessoal, heurística e imaginativa houve diferença estatisticamente significante no uso das funções mais e menos interpessoais e das funções regulatória, interacional, pessoal e heurística.

CONCLUSÃO: o perfil funcional da comunicação das terapeutas é bastante distinto do de seus pacientes quando comparamos cada uma das funções e quando analisamos os agrupamentos de funções (mais e menos interpessoais e instrumental, regulatória, interacional, pessoal, heurística e imaginativa). As terapeutas utilizam funções para preencher o espaço comunicativo e realizar pedidos, resultado que concorda com estudos anteriores.

Introdução

O desenvolvimento da linguagem é assunto de controvérsias e foco de diferentes áreas e linhas de pesquisas. Existem questionamentos a respeito dos fatores intervenientes nesse processo, sendo que alguns consideram as questões sociais e cognitivas como pré-requisitos e outros as consideram questões afetadas pela linguagem. Mesmo que uma posição rígida não seja adotada, a questão da interdependência dos aspectos sociais, cognitivos e lingüísticos existe (Molini-Avejonas e Fernandes, 2004).

Tal inter-relação não é apenas verdadeira para o desenvolvimento típico, mas também, em outras patologias que se manifestam na infância. Dentre estas, uma das mais intrigantes são as pertencentes ao espectro autístico. A primeira descrição científica dessa população foi realizada por Kanner em 1943; desde então, inúmeros pesquisadores dedicaram-se ao estudo desse quadro. Dentre as diferentes linhas de pesquisa e explicações sobre a causa do autismo, a descrição dos aspectos lingüisticos permanece como uma marca constantemente presente em todos os estudos que analisam o quadro (Fernandes, 2000a). Em vários destes, fica evidente que os questionamentos sobre a união nos aspectos mencionados - cognição, socialização e linguagem - são absolutamente importantes para a compreensão dos transtornos do espectro autístico, cuja marca distintiva é a acentuada dificuldade de interação social.

O primeiro vínculo afetivo no desenvolvimento é estabelecido com o cuidador. Este, sendo o portador da cultura, será o guia da criança em seu conhecimento de mundo e será o primeiro a significar as vocalizações inicialmente não comunicativas (Borges e Salomão, 2000; Sperry e Symons, 2003).

Este papel, de primeiro parceiro comunicativo, adquire maior importância quando se enfoca a atenção compartilhada. Essa habilidade, adquirida precocemente no desenvolvimento típico, pressupõe que a criança deseja comunicar ao outro seu desejo, seja através da alternância de olhar ou do uso de gestos (Jones e Carr, 2004). As trocas afetivas que ocorrem durante a interação cuidador-criança, em relação a outro referente (objeto ou evento), funcionariam como base para a comunicação não verbal; esta, por sua vez, contribuiria para o aumento das habilidades sócio-cognitivas da criança (Bosa e Callias, 2000). Os estudos que enfocam tal habilidade nas crianças com autismo são unânimes em afirmar que essas crianças apresentam déficits na aquisição e desenvolvimento dessa habilidade que pressupõe a intenção comunicativa.

Os pais, primeiros parceiros comunicativos, ajustam sua fala à da criança com o intuito de facilitar a comunicação; por esta razão o comportamento comunicativo dos pais pode ser um importante facilitador no desenvolvimento das habilidades comunicativas das crianças (Siller e Sigman, 2002; Sperry e Symons, 2003). Siller e Sigman (2002) relataram que pais de crianças autistas sincronizam seu comportamento ao foco de atenção da criança, tal como acontece com pais de crianças com atraso de desenvolvimento e típicas. Eles hipotetizaram que o estilo comunicativo dos pais tenha evoluído a partir do conhecimento que os mesmos têm das habilidades comunicativas de seus filhos. A sintonia entre criança e pais também foi observada por Newland et al. (2001), os autores observaram que, conforme a criança fica mais velha, e linguisticamente mais competente, os jogos entre a díade também se tornam mais elaborados, sugerindo que há uma ligação entre o jogo social e a emergência da linguagem. A relação entre jogo e linguagem, na díade mãe-criança, também foi analisada com relação ao contexto proporcionado pela mãe para a construção da linguagem da criança e pelo incentivo, dado por ela, para que a criança use palavras e gestos para comunicar-se. Williams (2003) referiu que as crianças com autismo engajam-se em mais atividades solitárias e exploratórias que crianças normais, durante brincadeiras com os pais, e utilizam menos gestos de atenção conjunta para compartilhar tópicos de interesse com o interlocutor.

Loveland et al. (1988) observaram que pais de crianças autistas iniciam mais episódios de comunicação e usam mais frases imperativas que pais de crianças normais.

O destaque para o papel de intérprete, desempenhado por pais e cuidadores, remete à noção de especularidade. Nesta, fica evidenciada a dependência no diálogo entre o adulto e a criança (Borges e Salomão, 2000), ou seja, o adulto está em dependência dialógica com a criança tanto quanto esta está em relação ao adulto.

Em um estudo sobre uso de software para melhorar as habilidades lingüísticas de crianças autistas e com outras desordens de desenvolvimento, Tjus et al. (2001) relataram que houve uma correlação entre o comportamento expresso pelo professor e pela criança, sendo que, quanto mais passivo era o comportamento da criança, mais diretivo o professor se tornava; além disso, observaram que existe uma relação entre a habilidade lingüística da criança e a comunicação do professor.

Cervone e Fernandes (2005), destacaram que, durante a interação entre adulto e crianças de quatro e cinco anos, houve um equilíbrio com relação ao número de atos por minuto utilizados por ambos, ainda que tenha sido encontrada diferença estatisticamente significativa com relação a essa medida.

Durante a interação social, os interlocutores consolidam sua competência comunicativa. Tal competência possui estreita relação com o aumento da sensibilidade em relação ao ouvinte e as condições sob as quais os atos de fala são considerados apropriados ou não. Além da aprendizagem fonológica e sintática, a criança aprende as normas sociais que regem a interação com o parceiro comunicativo. Os pré-requisitos cognitivos e sociais, as funções de linguagem, as normas conversacionais e as variações estilísticas são aprendidas na interação social e esta é o fundamento dos processos de aquisição (Prutting, 1982). Estudos mostram que os indivíduos do espectro autístico apresentam intenção comunicativa (Molini e Fernandes, 2003) e mostram-se sensíveis ao interlocutor (Bernard-Optiz, 1982). Esta última autora estudou a interferência de diferentes interlocutores na comunicação da criança autista. Os resultados mostraram que estas crianças utilizavam mais funções comunicativas quando interagiam com um adulto familiar (clínico e a mãe) do que com um adulto não familiar. Analisando a comunicação do adulto, foi observado que estes realizavam mais pedidos que outras funções.

Em geral, os estudos sobre aquisição e desenvolvimento de linguagem no autismo focalizam a comunicação da criança (Fernandes e Barros, 2001; Cardoso e Fernandes, 2003; Molini e Fernandes, 2003), e alguns analisam a díade mãe (cuidador) - criança, buscando compreender em que medida a papel de pais e cuidadores influencia a comunicação da criança autista (Borges e Salomão, 2000; Siller e Sigman, 2002).

A contribuição destes estudos é inegável, porém pouca atenção foi dada ao papel do fonoaudiólogo, o que pode ser comprovado pela ausência de trabalhos a respeito nas bases de dados internacionais. A ação do terapeuta, ainda que não seja sistematicamente estudada, adquire relevância quando se pensa em intervenção, que, como amplamente divulgado, deve ser realizada o mais precocemente possível (Diehl, 2003).

O foco terapêutico evoluiu de considerações e motivações comportamentais, para uma abordagem que enfatiza os aspectos pragmáticos de linguagem (Molini e Fernandes, 2003). Com relação às técnicas comportamentais, uma das grandes críticas foi a pouca transferência das mesmas para situações cotidianas. Ou seja, não havia generalização dos aspectos enfocados em situações naturais de interação. Isso levou pesquisadores e clínicos a buscarem procedimentos terapêuticos mais naturais e que promovessem, não apenas a adequação da linguagem, mas também questões como melhores competências interacionais, levando o interlocutor em consideração (Beisler e Tsai, 1983). Alguns estudos focalizaram a eficácia terapêutica em termos de medidas padronizadas, mas não enfocaram a ação direta do terapeuta (Law e Garret, 2004). Com relação a esta, algumas diretrizes, tais como: maior simetria na relação com o paciente; adoção de um posicionamento real em relação à comunicação do outro, no qual o não entender e não ser entendido fazem parte do processo comunicativo; consistência entre funções e meios; e o trabalho com as funções e meios comunicativos, tornando-os cada vez mais funcionais, são relatadas como importantes aspectos da ação do terapeuta de crianças do espectro autístico (Fernandes, 2003).

Grande parte das abordagens terapêuticas tem como objetivo desenvolver fala funcional; para isso, algumas das técnicas utilizadas são: aumento da motivação, uso de reforço diretivo, variação de estímulos materiais, reforço de tentativas verbais de comunicação, uso de múltiplos exemplos e outras (Koegel et al., 1987). Apesar de questões referentes aos interlocutores serem levadas em consideração, a preocupação primordial é o aumento no uso de vocábulos sem necessariamente enfocar outras questões, como outros meios comunicativos e diferentes contextos. Koegel (2000) apontou que o processo de intervenção tem enfocado aspectos como: aumento na espontaneidade, variar funções, iniciar a comunicação, usar socialmente a linguagem e outras questões.

O aumento da interação social tem sido o foco de vários estudos (McConnel, 2002). Segundo o autor, as pesquisas adotam as seguintes linhas de atuação: variações ecológicas, intervenção em habilidades colaterais, intervenção específica com a criança, intervenção mediada por um par (de mesma idade) e intervenção compreensiva (na qual aspectos das demais abordagens são utilizados). Estas pesquisas, ainda que forneçam informações sobre o papel do terapeuta, não analisam a ação deste de forma específica, mas sim, os seus princípios norteadores.

Na literatura, poucos estudos (Bernard-Optiz, 1982; Fernandes, 2000a), enfocam a dupla comunicativa terapeuta-paciente, no entanto essa díade é sempre ressaltada como potencialmente importante para o prognóstico da criança pertencente ao espectro. Fernandes (2000a) estudou os aspectos funcionais de crianças autistas no contexto de terapia fonoaudiológica. Foram realizadas comparações entre as funções utilizadas prioritariamente pelos pacientes e seus terapeutas. Os resultados indicaram que os adultos comunicaram-se realizando pedidos (de informação e ação) com o intuito de interagir com o paciente. Para preencher o espaço comunicativo, foram realizados comentários e performativos, e, para obtenção da atenção da criança, foi utilizada a função "exibição". O número total médio de pedidos foi de 44,8%; os comentários e performativos somaram um total de 22,5% e os atos de exibição totalizaram 18,5%. Os pedidos também foram utilizados pelos terapeutas estudados por Bernard-Optiz (1982).

Analisar a comunicação terapeuta-paciente é necessário para a reflexão sobre a prática clínica. Desta forma, o objetivo geral da presente pesquisa científica é verificar e analisar o perfil pragmático de terapeutas de paciente autistas.

Como objetivos específicos foram definidos:

. Identificar as funções comunicativas expressadas por terapeutas e pacientes, segundo os critérios propostos por Cardoso e Fernandes (2003).

. Identificar as funções comunicativas expressadas por terapeutas e pacientes, segundo os critérios propostos por Halliday (1978).

. Comparar as funções comunicativas expressadas pelos diferentes terapeutas.
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