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Formação Profissional
  Enviado em Tue 25 Aug 2009 por Webmaster (822 leituras)
Alfabetizar uma criança — um adolescente, ou até mesmo um adulto — não é tarefa para qualquer um. Exige muita paciência, amor pela profissão e certo desapego material. Afinal, na maioria das vezes, o salário de alfabetizador não é lá muito empolgante. E se as dificuldades são grandes, imagine quando as turmas são formadas por portadores de necessidades especiais. Para esclarecer os principais pontos de uma profissão tão delicada, Patrícia Gonçalvez de Melo, estudante do 3º semestre de Pedagogia na Faculdade Santa Terezinha, entrevistou a psicóloga Márcia Cristina Lima Pereira, professora do Centro de Ensino Especial II, na 612 Sul.

PATRÍCIA DE MELO — Quais são as dificuldades encontradas na área de ensino especial? O governo dá a assistência necessária para o setor?

MÁRCIA CRISTINA LIMA PEREIRA — O apoio que a gente tem é mínimo, em termos até do próprio investimento dentro da profissão, de ter curso, instrução gratuita. A gente tem que pagar do próprio bolso. É muito raro conseguir uma atualização, uma capacitação na área, que seja provida pelo Estado. E além dessa dificuldade acadêmica, de crescimento científico, há a questão da dificuldade psicológica. A gente lida com muita frustração, com emoções complicadas. Você investe, chora, sonha com aquela criança. E chega à escola esperando um ‘‘oi tia’’, um abraço, um beijo e de repente, principalmente na área em que atuo, com autismo e psicose, a criança pode não demonstrar aquele afeto que a gente gostaria. Às vezes, você chega disposta a receber um beijo e recebe um chute, um beliscão. São coisas que afetam muito a gente. E a Secretaria de Educação não dispõem de psicólogos para dar esse apoio ao profissional. Isso complica muito. Muita gente com perfil adequado para trabalhar no meio acaba desistindo pelo tanto que sofre sem ter alguém que oriente, que esteja junto, que escute e que apóie.

PATRÍCIA — O que você faz no dia-a-dia? O que um profissional de ensino especial passa para os alunos?

MÁRCIA — A gente trabalha de acordo com a capacidade pedagógica de cada criança. Se o aluno é capaz de apreender as situações no currículo regular, você vai trabalhar a alfabetização, a parte pedagógica mesmo, como qualquer professor. Mas, o que é mais importante é trabalhar as atividades da vida diária. Ensinar aquela criança a viver. No autismo, por exemplo, as principais características dos alunos são problemas de interação social, de comunicação, de linguagem, comportamentos repetitivos. Então, trabalhamos na modificação de comportamentos inadequados que ele apresenta. Ensinamos a vida prática: sair, ir para a rua, comprar coisas, como entrar no supermercado, como se comportar lá dentro, explicar que ele não pode levar aquilo que ele não tiver dinheiro para comprar. Todos os dias a gente sai da escola para fazer o trabalho fora.

PATRÍCIA — O profissional que queira ingressar no ensino especial precisa fazer algum curso específico depois da faculdade de Pedagogia?

MÁRCIA — Não. Como você é um professor de atividades, não faz um curso específico para o ensino especial. Você é um professor de ensino regular que fez a opção pelo ensino especial. Geralmente pede-se que a pessoa tenha algum curso dentro da área que espera atuar. Não é, no entanto, uma exigência tão rígida. No meu caso, quando entrei eu tinha o curso de Psicologia, mas não tinha absolutamente nada específico para atuar na minha área.

PATRÍCIA — Quais são as características do profissional dessa área? O que fazer para não desistir no meio do caminho?

MÁRCIA — A primeira coisa seria optar por vontade própria, não pelo trocadinho que vier a mais, ou por estar desempregado e a única vaga disponível estiver no setor. A primeira coisa é realmente ter a consciência de que é aquilo que você quer. De repente o profissional pode até experimentar antes. Passear, visitar outras escolas, para ver se é isso mesmo que quer. É claro que não tem como você ter certeza, só atuando a gente vai ter essa garantia. Mas, ajuda. Esses profissionais devem ser as pessoas mais responsáveis, principalmente para trabalhar com autismo. Os alunos exigem uma certa rotina, eles estabelecem relação de vínculos com mais demora do que qualquer criança normal. A rotina, sem eventualidades, dá uma sensação de segurança. Se você se atrasa, o aluno vai ficar perdido dentro da escola, se não tiver quem o acolha, quem o receba. Então é difícil: o professor de autismo não pode adoecer, não pode faltar e tem algumas limitações.

PATRÍCIA — Eu ouvi dizer que professor de autista não pode nem cortar o cabelo sem avisar antes para os alunos. É verdade?

MÁRCIA — Alguns autistas têm esse quadro mais grave, mais comprometido. Eles têm uma dificuldade em aceitar coisas novas. Todos os dias trabalhamos de calça, camiseta e tênis, uma roupa que permita que você corra, que você possa dar o atendimento adequado. O aluno está acostumado àquele padrão. Um dia, você tem uma festa, uma reunião logo depois da aula e vai com um vestido novo, uma saia nova, cabelo diferente. Ele pode olhar e não reconhecê-la como a professora dele. E aí, pode ficar realmente com uma ansiedade muito grande e vir a ter crises em função disso.

PATRÍCIA — Como você vê a questão da inclusão de alunos especiais em escolas não-especializadas?

MÁRCIA — Espero que um dia isso aconteça. Todo profissional vai ter que estar preparado para ver o aluno especial como outro qualquer. Não vai ser mais o aluno deficiente mental. Vai ser o aluno fulano de tal. Cada um com suas diferenças, suas necessidades, suas potencialidades. E cada um vai ter que ser respeitado como ser humano. Acho que chegará o dia em que vai acabar a educação especial. Isso quando a gente realmente tiver uma sociedade toda inclusiva. E qualquer escola vai receber qualquer criança. E respeitar mais. O preconceito ainda é muito grande, embora a gente tente fazer uma maquiagem para que isso não apareça. Hoje, a gente ainda tem carência desses profissionais específicos para cada área. Mas acho que é preciso pensar nessa perspectiva de receber qualquer aluno na escola e ter condições de atendê-lo bem dentro das necessidades dele.
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